Chaves do desenvolvimento

"Daqui a dois meses, ao terminar essa obcecação, por favor gostaria de receber de volta as chaves da sala."

Talvez tenha sido essa a frase que o inquilino que ocupava a sala da frente no 1º andar do nº 6 da Rua da Alfândega tenha dito, no final do ano de 1880, ao proprietário do prédio. Corretor de fundos, estrangeiro, grande era a sua descrença sobre a estabilidade das associações no Brasil.

Ledo engano! Quando se trata de brasileiros formados para pensar, projetar, executar e manter as suas instituições quase sempre tornam-se seculares.

Corria o ano de 1880. Terminada já há 10 anos a Guerra do Paraguai, havia uma opinião que se generalizava pela sociedade: eram necessárias medidas para debelar a crise econômica, social e política que se abatera sobre o Brasil.

Aos poucos, tornou-se hábito reunirem-se, quase que diariamente, na papelaria de Soares e Niemeyer, alguns de nome já feito e outros no início da profissão. Engenheiros, industriais e construtores em busca de soluções relativas aos problemas específicos de suas atividades, mas também relacionados à modernização brasileira.

Na véspera do Natal daquele ano, cerca de 50 deles reuniram-se na sala. Iniciava-se a realização de um sonho de Conrado Jacob de Niemeyer: constituir uma associação que reunisse engenheiros, industriais e fabricantes para discutir questões técnicas e políticas, para o bem do nosso país.

Nos seus 125 anos de existência, incontáveis foram as suas realizações. Liderou e sempre esteve inserido nas grandes questões nacionais, como a abolição da escravatura, a proclamação da República, a questão do Acre, o socorro às regiões flageladas pela seca, o carvão nacional, a abertura da Avenida Central e o Código das Águas.

Contribuiu decisivamente para a confecção da 1ª Carta Geográfica do Brasil e recebeu a visita de Einstein. Participou ativamente da regulamentação da profissão de engenheiro e das grandes campanhas políticas nacionais como "O petróleo é nosso", as "Diretas Já", "Não privatização de Furnas" e tantas outras.

Ao longo de sua história, o Clube de Engenharia sempre destacou a notável atuação de nossas empresas de engenharia e dos seus profissionais na luta por sua permanência no cenário econômico, muitas vezes executando obras no exterior por não as encontrar no mercado interno.

O Brasil cresceu e se desenvolveu sempre que planos foram traçados, metas estabelecidas, projetos elaborados e obras e serviços foram executados. Assim ocorreu com as empresas nacionais nas áreas de siderurgia, minério, petróleo, energia, comunicação, telefonia, e com as indústrias aeronáutica e automobilística, entre outras. A engenharia brasileira orgulha-se de sua efetiva e decisiva participação em todas as fases dessas realizações. Seu desempenho sempre esteve intimamente ligado ao progresso brasileiro.

Em nome deste passado, esta gestão se pautará, entre outras, nas seguintes lutas:

l Desenvolvimento do país;

l Investimento em infra-estrutura, nos setores da engenharia: habitação, saneamento, transportes, energia, comunicações e meio ambiente;

l Valorização permanente da engenharia nacional e dos seus profissionais;

l Investimento para o desenvolvimento de tecnologias nacionais e a defesa do estágio já atingido em vários setores.

Essas são tarefas que interessam e unem todos os engenheiros, empresas e associações de engenharia. Só com o concurso de todos, espírito de união e o sonho de Conrado Niemeyer será possível realizá-las.

As chaves daquela sala da Rua da Alfândega nº 6 não foram devolvidas. E nem poderiam ser. Afinal, essa não é uma instituição qualquer. A sociedade aprendeu, ao longo desses últimos 125 anos, a importância para si mesma do seu Clube de Engenharia. Aliás até, se alguém hoje nos solicitasse as nossas chaves, diríamos simplesmente: "Dirija-se à sociedade brasileira, pois este Clube a ela pertence".


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