O Clube de Engenharia nos séculos XIX e XX

Olavo Cabral Ramos Filho

Uma avenida entre dois patrimônios – o convento e o morro

Na edição de março de 2003 foi publicado nesta coluna artigo sobre o alinhamento projetado e executado da Avenida Central. Numa espécie de autópsia da realização da construção da avenida, sem nenhuma possibilidade de volta no tempo, foi levantada uma hipótese. A possibilidade que a pequena distância entre a pista de rolamento e o canto do edifício setecentista do Convento da Ajuda tenha contribuído para a argumentação favorável a sua demolição em 1911. O artigo de março de 2003 continha um equívoco ao informar que a demolição havia ocorrido nas vésperas da construção do conjunto de prédios da Cinelândia no inicio dos anos vinte.

Lima Barreto, iniciou, mas nunca terminou seu curso de engenharia na Escola Politécnica. “Sistematicamente reprovado pelo professor de Mecânica, é obrigado a deixar a Politécnica ”( 1). Sobreviveu como funcionário público e jornalista. Escreveu obras primas de ficção e artigos entre 1900 e 1922. No artigo “O Convento” publicado na Gazeta da Tarde de 21 de julho de 1911 abordou a venda do convento para demolição. Um pequeno trecho do artigo: “O bonito envelhece, e bem depressa; e eu creio que, daqui a cem anos, os estetas urbanos reclamarão a demolição do Teatro Municipal com o mesmo afã com que os meus contemporâneos reclamaram do convento” (2).

Em sua primeira definição de largura, a avenida teria 50 metros. Esse era o desejo de Paulo de Frontin. O Prefeito Pereira Passos ordenou uma redução para 30 metros. O engenheiro João de M. Travassos Filho conseguiu projetá-la com 33 metros. O alinhamento projetado, com seu inicio no Largo da Prainha, deu, como resultado o quase tangenciar do ângulo do prédio do Convento construído entre 1748 e 1750. Esse alinhamento ainda faria necessário um desbaste de aba do Morro do Castelo até cotas de 15 a 25 metros.

Em nossa autópsia supomos que se o afastamento do ângulo do Convento fosse bem maior, esse possível argumento para demolição ficaria prejudicado. Uma pequena rotação de um grau do eixo da avenida de 1800 metros, mantendo-se o mesmo ponto de origem no Largo da Prainha, afastaria a Avenida cerca de 30 metros do ângulo do Convento. Mas seriam necessários cortes adicionais no Morro até as cotas 30 a 40 metros; quiçá menores se fosse eliminada ou reduzida a largura da projetada “Rua Paralela” hoje Rua México , e/ou relocados os prédios projetados da Biblioteca Nacional e outros dos quarteirões até a Rua Santa Luzia.

A demolição do morro no inicio dos anos vinte teve outras razões menos edificantes ligadas às possibilidades imobiliárias na grande esplanada. Aquele corte adicional gerado pela nossa hipótese de salvação do Convento, digamos, poderia ter antecipado as elucubrações sobre a demolição do morro.

Nossa ficção idealista pós-datada supõe que tanto o Convento como o morro seriam preservados até nossos tempos, para serem festejados junto com o centenário da Avenida. Mas o resultado do afã dito modernizador que gerou a Avenida Central na primeira década do século XX e os frágeis argumentos sanitários que demoliram o morro nos anos vinte, eliminaram um grande patrimônio arquitetônico ali pertinho do Passeio Público e todo o centro histórico original da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro com todos os seu prédios civis, militares e religiosos construídos a partir do século XVI e, principalmente nos séculos XVII e XVIII. Vamos usar a imaginação visitando o Convento e arredores, caminhando pelas ladeiras do morro, visitando seus prédios restaurados e utilizados. Túneis sob o morro seriam fáceis decisões de urbanistas, cujos projetos e obras engenheiros saberiam muito bem elaborar e construir.

Do Convento temos que nos contentar com a preservação do seu chafariz
instalado na Praça General Osório em Ipanema. Meninos ipanemenses brincaram sobre sua estrutura sem água ao longo do século XX. Do morro, merecem visitas freqüentes, mas frustrantes, o curto pedaço remanescente da Ladeira da Misericórdia.


(1) Lima Barreto Toda Crônica – Introdução: Sonhos e mágoas de um povo – Beatriz Resende – página 9.
(2) Idem – página 98.

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