| Reestruturação
da CEDAE: uma questão de cidadania
O Clube de
Engenharia, ao longo de sua história, sempre se fez presente
nos debates de grandes temas nacionais, pautando sua atuação
pela defesa da democracia, do desenvolvimento e do fortalecimento
da engenharia e tecnologia nacionais.
É urgente uma abordagem do tema "reestruturação
da CEDAE", em face da recente divulgação de
medidas sobre estudos para a cisão da CEDAE em seis empresas,
sendo uma de produção e cinco de distribuição.
A de produção seria mantida sob o controle do Estado,
"para dar legitimidade ao processo", e as cinco distribuidoras
seriam entregues, mediante leilão público, à
iniciativa privada, assegurando, aos futuros compradores, o êxito
do negócio, pois o produto colocado à venda é
a viabilidade do potencial fluxo de caixa destinado a cada uma
das Distribuidoras.
Uma avaliação
isenta da questão exige o conhecimento da evolução
do setor de saneamento básico ao longo de sua história
recente. Até meados da década de 60, o setor estava
desorganizado. Além de inexistir uma política global,
não havia recursos e organização institucional
para solucionar o déficit crescente do setor, diante do
acelerado processo de urbanização do país.
No entanto,
em alguns Estados, haviam sido tomadas iniciativas pioneiras para
a solução de crises de abastecimento de água.
Destaque-se, no antigo Estado da Guanabara, a criação
da CEDAG em 1965, a primeira companhia do país organizada
dentro de uma concepção moderna para a época,
dotada de viabilidade financeira que permitiu a viabilização
do financiamento do Sistema Guandu, com recursos do Banco Interamericano
de Desenvolvimento – BID. A CEDAG foi durante uma década
modelo para todo o país.
Em 68, é criado, pelo Governo Federal, o Sistema Financeiro
de Saneamento – SFS, com suporte de recursos do FGTS e,
logo em seguida, lançado o PLANASA – Plano Nacional
de Saneamento, estabelecendo-se mecanismos, sob a coordenação
do extinto BNH, que permitiram acelerar as ações
de atendimento às demandas em saneamento básico.
Nesta época,
foi criada a maioria das companhias estaduais de saneamento, pois
o modelo adotado, centralizador das ações, determinava
o financiamento do setor, exclusivamente, através das empresas
estaduais. Os resultados alcançados no período de
existência do PLANASA foram expressivos e de grande alcance
social.
A partir de
90, com a grave crise econômica que assolou o país,
ficaram escassos os recursos para o setor de saneamento. A União
deixou de desempenhar o papel de financiadora, vedando o aporte
de recursos para investimento das companhias estaduais de saneamento.
Assinale-se que, em 1994, o BNDES abriu linhas de financiamentos
para a iniciativa privada, visando sua participação
nos programas de privatizações patrocinados pela
União e Governos Estaduais.
Diante desse
quadro adverso, algumas companhias estaduais iniciaram processos
de reestruturação para se adequar à nova
realidade do país.
O melhor exemplo
é o da SABESP (São Paulo) que, no Governo Mario
Covas, passou por um amplo processo de reestruturação
a partir de proposta formulada por seus empregados, ampliando
sua área de atendimento, em parceria com as Municipalidades,
tendo aberto o seu capital societário a 49,7% de acionistas
minoritários. Segue-se a SANEPAR (Paraná) que, por
decisão do Governador Requião, denunciou o "Acordo
de Acionistas" limitando a atuação do seu parceiro
estratégico. Mais recentemente, a COPASA (Minas Gerais),
na atual administração do Governador Aécio
Neves, implantou um "choque de gestão" com base
em medidas de ordem institucional, administrativa e operacional,
renovando convênios com 533 municípios.
A CEDAE é
um patrimônio da sociedade do Estado do Rio de Janeiro,
constituído pelo pagamento das tarifas, que deu suporte
à construção deste fantástico conjunto
de obras, ao longo de décadas. É a segunda maior
empresa de saneamento do país. Atua em 64 dos 92 Municípios
do Estado do Rio de Janeiro, sendo responsável pelo abastecimento
de água a cerca de 10 milhões de pessoas e pelo
atendimento com serviços de esgotamento sanitário
a 6 milhões de pessoas. Produz cerca de 59 m³/s de
água, de excelente qualidade, respondendo o Sistema Guandu
por 43 m³/s. Sua rede de esgotos coleta 15 m³/s de despejos
sanitários, sendo 60% deste volume encaminhado para Estações
de Tratamento e o Emissário Submarino de Ipanema. É
de se destacar a parceria indispensável das empresas de
engenharia nacionais do setor de consultoria e de execução
de obras públicas, na construção desse valioso
patrimônio.
A reestruturação
da CEDAE é medida urgente e inadiável. O índice
de inadimplência atual, da ordem de 27%, resulta em uma
evasão de receita estimada em R$ 41 milhões/mês
que, recuperada, restabelecerá o equilíbrio financeiro
da empresa.
Entretanto,
seu processo de reestruturação deve ser orientado
por um projeto transparente, que reflita os interesses da sociedade
usuária dos seus serviços, estruturado por modelo
de gestão pública eficiente, sustentável
e ética, com índices de desempenho iguais ou superiores
aos das outras empresas do setor, inclusive as privadas, com a
participação das Prefeituras que detêm a outorga
dos serviços locais.
O Clube de
Engenharia não pode ficar alheio a este processo de reestruturação,
tendo em vista a importância social do setor de saneamento,
por seus reflexos diretos na qualidade de vida da população
e seu peso como indutor do desenvolvimento, pelas obras e pela
tecnologia e engenharia envolvidos.
A
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