Aprender com o desastre

Infelizmente, 2007 se iniciou com acidentes marcantes relacionados com a Engenharia. A catástrofe ambiental ocasionada pelo rompimento de uma barragem em Minas Gerais; o desmoronamento de encostas, sob fortes chuvas, na região serrana do estado do Rio de Janeiro, com maior intensidade em Nova Friburgo, ocasionando vitimas e muitos desabrigados, o desabamento ocorrido em obras do Metrô de São Paulo e suas graves conseqüências, levam-nos a uma reflexão mais aprofundada sobre suas diferentes causas e responsabilidades.

Não há qualquer justificativa para que acidentes como o de Minas, como o rompimento de mais uma barragem de contenção, pertencente à mesma industria, se repitam com a regularidade observada, com reflexos ambientais graves e afetando a qualidade da água dos rios que abastecem cidades do próprio estado e do Rio de Janeiro.

Se a solução do problema transcende a capacidade das autoridades ambientais e administrativas dos estados envolvidos, não é admissível a omissão maior da administração federal. Há uma queixa do próprio governo em relação à demora para concessão de licenças ambientais para importantes obras de infraestrutura capazes de "travar" o desenvolvimento do país. Porque não direcionar também a sua ação sobre questões, causas e responsáveis já plenamente identificados? Verifica-se um excesso de tolerância em questões fundamentais, que além de afetar o meio ambiente alcançam populações inteiras, trazendo-lhes incalculáveis prejuízos.

Quanto à catástrofe das obras do Metro de São Paulo, o que é possível afirmar é a capacitação da engenharia nacional para a sua realização, observadas as melhores condições técnicas para projetar, executar e acompanhar uma obra desse porte. As firmas que integram o consórcio construtor possuem elevada capacitação técnica e tecnologia, são grandes empresas nacionais, atuando também em nível internacional.

Segundo as estatísticas, um insucesso desastroso numa grande obra de engenharia nunca é devido a uma única causa. Uma soma de erros ou um alinhamento de deficiências menores, podem responder por acontecimentos deste porte.

O conceituado Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo foi incumbido de pesquisar e determinar causas e responsabilidades. Suas conclusões devem também extrair lições para evitar a repetição desses fatos. Será este o único beneficio a contabilizar-se pelo altíssimo e irrecuperável custo social incorrido.

Procurando fazer o trajeto oposto, o do êxito, caberia salientar a importância de alguns dos principais fatores de sucesso em qualquer empreendimento de engenharia. A importância do projeto se destaca como talvez o principal desses fatores, o projeto básico e o seu detalhamento. Investir num bom projeto é o que de melhor pode acontecer para garantir o êxito de uma obra. O seu custo representa de 3% a 5% do valor da obra. O que for despendido em tempo e dinheiro em pesquisas, sondagens e estudos em geral será altamente recompensado com o retorno em segurança da obra, dos seus executores, dos futuros usuários e da comunidade em geral, tratando-se, principalmente, de obra pública.

Obras como túneis, dutos e outras que atravessam diferentes tipos de solo, além de outras condicionantes, justificam plenamente uma minuciosa pesquisa geotécnica com soluções específicas para cada trecho.

O Clube de Engenharia tem defendido enfaticamente a tese da elaboração detalhada dos projetos de engenharia de obras públicas numa fase anterior à decisão da sua construção, para que não seja atropelada pelo prazo de execução física, após autorizado o seu início. Seria uma forma de sustentar o desenvolvimento de um bem estratégico para o país, que é a capacitação da engenharia de Consultoria além de garantir projetos mais estudados e elaborados.

Outro fator de sucesso, de fundamental importância, está na existência de uma competente fiscalização técnica, atuando em todas as fases da obra, capaz de estabelecer o necessário e construtivo contraditório. Deve ser exercida por organização independente da de execução. A prática tem demonstrado que não há como conciliar de forma satisfatória, em favor do empreendimento, o conflito de interesses estabelecido quando as funções de execução e fiscalização são atribuídas a uma mesma organização.

Outros importantes fatores estão abrangidos pelas diversas disciplinas que integram a desenvolvida ciência da gerência de empreendimentos, como a existência de um texto contratual bem elaborado e que atenda aos interesses de ambas as partes, a precisa definição dos processos construtivos, dos meios a utilizar, dos materiais a empregar, do respeito ao meio ambiente, da preservação da segurança em todas as fases e nas áreas de influência da obra, da implantação de um sistema de administração da qualidade, dentre outros.

Ficamos no aguardo das conclusões do IPT de São Paulo certos de que é preciso ter em mente que a engenharia deve estar voltada para o ser humano: sua qualidade de vida, seus direitos de usufruir a cidadania, de viver em condições dignas, em suma, voltada para a sua própria vida! Assim, não há economia, lucro ou prazo de execução que justifiquem, se de fato isso ocorreu, a ausência de cuidados necessários para a preservação do ser humano. Pautado, nesses aspectos o Clube de Engenharia vem atuando desde a sua criação e assim se manterá.

A Diretoria


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