O Clube de Engenharia nos séculos XIX e XX

Olavo Cabral Ramos Filho

O ano de 1918 – no Clube

Os acontecimentos do mês de novembro de 1918 poderiam ter merecido maior atenção da diretoria e do conselho diretor do Clube de Engenharia. A entidade sempre esteve presente nos " Momentos Decisivos da Vida do Brasil". Este foi o título de livro editado pelo Clube em 1996. Nos meses finais de 1918 a gripe espanhola atacou a população brasileira. A classe trabalhadora contribuiu com parcela muito maior de óbitos. A alta classe média refugiou-se em Petrópolis, ou, melhor alimentada, resistiu à gripe. A precária medicina fez o que pode.

Na reunião do Conselho Diretor de três de dezembro, o presidente Paulo de Frontin abriu a sessão justificando a não realização de reuniões na segunda quinzena de outubro e no mês de novembro por conta da epidemia. O conselheiro Arruda Beltrão propôs "voto de congratulações " pelo restabelecimento de Frontin. Este agradeceu e propôs que os votos fossem estendidos a todos os sócios atacados pela gripe e restabelecidos.

A lista dos mortos foi extensa. O primeiro vice-presidente Joaquim Silvo de Castro Barbosa, os sócios Mauricio Rodrigues de Souza, José Maria Saldanha Bittencourt, Francisco de Castro Filho, Dario Pederneiras, Carlos Vieira Souto, Antonio Martins Lage, Jorge Martins Lage, Flávio de Gouvêa Freire, Plínio do Prado, Caetano Garcia, Aníbal da Costa Pereira, Armando Delamare, João José da Silva, Bertholdo Wachneldt.

Na reunião de 12 de dezembro, o tenente Arthur Pereira de Mello palestrou sobre Fenômenos Elétricos. A reunião de 4 de janeiro de 1919 foi ocupada pela homenagem póstuma ao eng. Pedro Betim Paes Leme, também vitimado pela gripe. Na mesma reunião, o conselheiro César de Campos propôs voto de pesar pelo falecimento de Olavo Bilac. Na reunião de 16 de janeiro registrou as homenagens póstumas a Francisco de Paula Rodrigues Alves, recém eleito Presidente da República pela segunda vez.

O ano de 1918 – no país

O final de 1918, além da gripe espanhola e da morte do presidente eleito, no final do governo de Wenceslau Braz, foi um período de agravamento das condições sociais e econômicas da classe operária e das classes média média e baixa. O Clube de Engenharia não demonstrou preocupação, através dos debates e resoluções do seu Conselho Diretor, com o ambiente de crise social e carestia. Nem mesmo registrou a tentativa de insurreição anarquista em 18 de novembro de 1918.

O operariado consciente brasileiro, principalmente na Capital Federal e em São Paulo, encontrava-se desde 1917 em acelerado processo de organização. Em julho de 1917 a capital paulista parou com a grande greve geral. A Federação Operária do Rio de Janeiro ( FORJ) empenhava-se na campanha contra a carestia de vida e, a partir de fevereiro, multiplicaram-se os comícios. Apesar da proibição policial chegaram a quase 50 até o fim de maio. A FORJ realizava um meticuloso trabalho de organização e reorganização sindical . A brutal repressão à greve da Fabrica de Tecidos Corcovado em maio e o desabamento do Hotel New York em 7 de julho, quando morreram dezenas de operários, acirrou o ânimo dos trabalhadores cariocas.

O ano de 1918 nasceu sob o impacto da Revolução Russa. Em janeiro foi fundada por militantes libertários a Aliança Anarquista do Rio de Janeiro, dedicada especificamente à propaganda social. No dia 1o. de março foi fundada a União Geral dos Trabalhadores (UGT) em substituição a FORJ , fechada pela policia em agosto de 1917. A policia reagiu com violência repressiva sobre a UGT aos boatos de uma "projetada greve geral". A decretação de estado de sítio forçou o 1o de maio a ser comemorado nas sedes sindicais e num ato promovido pela UGT no Teatro Maison Moderne na Praça Tiradentes. O custo de vida continuou disparando em todo o país .

Em agosto greve da Companhia Cantareira (barcas) e da Viação Fluminense (bondes) adquiriu caráter de insurreição a partir de um conflito entre populares e a Força Pública em Niterói. Vários soldados do 58º Batalhão de Caçadores do Exército aderiram a causa grevista e participaram do tiroteio.
Em setembro começou a epidemia.

No dia 18 de novembro iniciou-se a insurreição anarquista. Os planos elaborados durante meses incluíam a adesão de militares. Porém, eram conhecidos do governo. O tenente Jorge Elias Ajuz foi infiltrado. Participou de todas as reuniões e chegou a ficar responsável pela estratégia militar do levante. No inicio da tarde foram presos José de Oiticica, Manuel Campos, Astrogildo Pereira, Carlos Dias, Álvaro Palmeira, José Elias da Silva, João da Costa Pimenta e Agripino Nazaré. Cerca de 200 pessoas foram detidas. Na porta da Fábrica Confiança a polícia matou o tecelão Manuel Martins e feriu outro operário, que veio a falecer dias depois.


Referências:
Boletim Libera – Ano 8 – Nº 90 – Novembro de 1998. A Insurreição Anarquista do Rio de Janeiro – Carlos Henrique Ador – 1986 – Dois Pontos Editora.
Nacionalismo e Cultura Social – Edgar Rodrigues - 1972 - Editora Laemmert.

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