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Economista aponta crise de 2008 como a maior do capitalismo
Para José Carlos de Assis, a saída é a cooperação entre os países
A Diretoria de Atividades Técnicas, através da Divisão Técnica de Engenharia Econômica (DEC), promoveu, no dia 4 de março, a palestra “A crise da globalização e o futuro do capitalismo”. O palestrante foi o jornalista, economista e doutor em Engenharia de Produção pela Coppe/UFRJ José Carlos de Assis, que introduziu o jornalismo investigativo na área econômica no Brasil, nos anos 80, quando publicou os best sellers “A Chave do Tesouro” e “Os Mandarins da República”, sobre os escândalos financeiros sob o regime militar. Posteriormente, dedicou-se à Economia Política, tendo publicado, entre outros, “O Grande Salto para o Caos” (1985), com a professora Maria da Conceição Tavares; “Análise da Crise Brasileira” (1988) e “A Nêmesis da Privatização”. Mais recentemente, escreveu “A Quarta Via” (2000), “Trabalho como Direito” (2002), tese de Mestrado, e “Moeda, Soberania e Trabalho” (2004), tese de Doutorado. Trabalhou nos principais jornais brasileiros, como repórter, redator e colunista, colaborando regularmente com alguns deles. Atualmente, é assessor da Presidência do BNDES.
A mesa da palestra foi composta pelo presidente do Clube de Engenharia, Francis Bogossian, o Diretor de Atividades Técnicas, Paulo Metri, e o Chefe da Divisão Técnica de Engenharia Econômica, Fernando Cariola Travassos.
Segundo José Carlos de Assis, muitos economistas e pensadores têm dito que passamos pela maior crise financeira mundial desde a Grande Depressão.
– Isto é um equívoco, pois estamos na maior crise da história do capitalismo. É a maior crise desde o início da era moderna. A crise da Grande Depressão, que foi a maior crise vivida até então pelo sistema capitalista, não quebrou nos Estados Unidos um único grande banco, corporação, seguradora ou empresa de crédito imobiliário. Desta vez quebraram ou virtualmente quebraram os dezenove maiores bancos comerciais americanos, porque depois do Lehman Brothers iriam quebrar certamente o Bank of America e o Citygroup e, atrás deles, os outros dezessete maiores. Se não fosse a injeção brutal de recursos feita pelo governo americano e o Federal Reserve todos teriam quebrado e levado junto a economia mundial. Vitualmente quebraram as duas simbólicas empresas manufatureiras americanas Chrysler e GM. Só não quebraram para valer por causa da intervenção do governo americano. Nada disso aconteceu nos anos trinta ou em uma das crises capitalistas do pós-guerra – comparou.
SISTEMA BANCÁRIO
Para o jornalista, o sistema bancário tradicional operava convertendo depósitos de curto prazo em empréstimos de longo prazo.
– Essa era a funcionalidade do sistema bancário. Com isso, ele fortalecia o crescimento da economia, porque o depósito à vista, na verdade, dá base para uma criação de moeda pelo sistema bancário. No depósito à vista, o dinheiro é disponível para o correntista a qualquer hora. No entanto, o banco usa esses recursos como se fossem poupança, porque ele sabe que quando alguém sacar, outro deposita. É fluxo de caixa utilizado para emprestar. A base do crescimento da economia capitalista é o sistema bancário comercial. Não é o sistema bancário de investimento, que opera com a poupança real. O que gera crescimento na economia é a operação com depósitos à vista pelo sistema bancário comercial.
José Carlos de Assis explicou que a partir dos anos oitenta, com a liberação da economia mundial, criou-se uma arquitetura financeira que gerou uma “alavancagem brutal” no crédito.
– Só que esse boom tem um limite, pois em determinado momento há um descompasso entre a renda real das pessoas e sua capacidade de pagamento. Não há volta possível para o sistema em vigor antes da crise de 2008. Isto é igual a Leão que come carne humana. O sistema bancário comercial, que se acostumou a operar no curto prazo e na especulação, continuará se recusando a emprestar para a produção, sobretudo para pequenas e médias empresas. Esse é o enigma atual do sistema bancário mundial – controlado pelos sistemas americano, inglês e alemão. Esse sistema está virtualmente falido, pois se tornou disfuncional. Não há crédito bancário para investimentos, sobretudo para pequenas e médias empresas, que são as que mais empregam. Só nos Estados Unidos o desemprego já atinge mais de onze milhões de pessoas.
O economista abordou ainda o modelo de crescimento adotado pelos países que estão crescento em meio à crise.
– Quem está crescendo no mundo? China e Índia. O que esses dois países tem em comum e de diferente do sistema ocidental? Eles têm planejamento estatal centralizado e sistema bancário público. Cem por cento dos bancos comerciais chineses são estatais. Noventa e seis por cento do crédito na Índia tem origem no setor público. Quem cresce no mundo é quem tem um sistema bancário que cumpre ordens de crescimento. Em novembro de 2008, os dirigente da China fizeram um plano de mais de US$ 500 bilhões e deram uma ordem ao sistema bancário: emprestem! E o sistema bancário cumpriu. Em novembro de 2008, na Índia, o governo reuniu dezesseis bancos comerciais estatais e deu uma ordem: reduzam a taxa de juros e ampliem o crédito. Com essas ações, a Índia conseguiu crescer mais de 6% no ano passado e a China, mais de 8%. Enquanto isso, nos Estados Unidos, houve um socorro ao sistema bancário de mais de US$ 700 bilhões no governo Bush e depois foi lançado o pacote do presidente Obama de US$ 767 bilhões. Mas não adianta, pois o sistema bancário não empresta e a economia não retoma.
ESTATIZAÇÃO
Segundo o jornalista, a única salvação à vista para o capitalismo ocidental é a estatização do sistema bancário comercial.
– Não é uma questão ideológica. Não estou falando disso em função dos bônus para diretores e da questão moral que envolve, mas de um ponto de vista ocidental. O capitalismo ocidental e japonês só vão funcionar se estatizar o sistema bancário e colocá-lo sob uma forma de governança nova, institucional, não necessariamente do Estado, do qual participem o setor produtivo e os trabalhadores. Não pode ficar é na mão do setor privado. No mundo, os bancos têm US$ 3,5 trilhões em empréstimos podres, o que gera uma pressão enorme para a geração de lucro. A curto prazo isto só é possível através da atuação em câmbio, títulos públicos, debêntures para as grandes empresas e especulação no curto prazo, todas sem risco. Mas o sistema bancário não empresta para pequenas e médias empresas, e às vezes não empresta até para a empresa média-grande. Isto porque se trata de um empréstimo de médio prazo, com risco, e sobretudo não retorna rápido para o banco fazer face a esse passivo de US$ 3,5 trilhões, que nunca vai ser honrado, todo mundo sabe, por se constituiu em crédito hipotecário, estudantil e de consumo.
O assessor da presidência do BNDES citou uma entrevista do megainvestidor George Soros na qual ele afirmou que o erro do presidente Obama foi não ter estatizado os bancos.
– Nesse processo, assistimos ao colapso completo do neoliberalismo, que era a idéia do estado mínimo e do mercado ato-regulado. Ninguém mais sequer fala nisso, a não ser os fundamentalistas de mercado, que dizem uma bobagem uma hora ou outra. Mas ninguém a ser levado a sério fala hoje mais em estado mínimo, porque os estados tiveram que fazer dívidas cavalares para salvar o sistema privado. Esse colapso não veio sozinho, mas trouxe também o colapso do paradigma ambiental anterior. Outro colapso foi o da geopolítica. A arma nuclear nivela, pois todos os países que a possuem passam a ser inatacáveis, pois entre eles não pode haver guerra. E colapsou também o paradigma da liberdade científica irrestrita, sobretudo no campo da genética. Será preciso um acordo entre países e instituições para definir regras na pesquisa e na engenharia genética, sob o risco de colocar a própria humanidade numa situação de perigo.
Segundo o pesquisador, nesses quatro campos houve o colapso de paradigmas civilizatórios.
– Por isto, quanto estava discutindo com meu amigo Paulo Metri sobre o título desta palestra, pensei primeiro em “A crise da globalização e o futuro da civilização”. Acabou ficando “futuro do capitalismo”, mas o que está acontecendo é uma mudança da civilização mesmo. O capitalismo, obviamente, é estruturante da civilização, mas a geopolítica, a pesquisa científica e a questão da produção também são. Então, esse conjunto de fatores estruturantes está nos empurrando para uma nova era. Eu não sei qual será a saída, mas sei como será: pela cooperação. Não há como superar a crise econômica a não ser pela cooperação entre os países.
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