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Seminário sobre transporte público para as Olimpíadas traz lideranças do setor ao Clube de Engenharia
O Clube de Engenharia promoveu no dia 25 de março, o seminário “Transporte Público para as Olimpíadas”. O evento, aberto pelo presidente do Clube, Francis Bogossian, reuniu na entidade autoridades, lideranças e especialistas como o secretário estadual de Transportes, Deputado Federal Júlio Lopes, o secretário municipal para as Olimpíadas, Ruy Cesar Miranda Reis, o presidente do Metrô Rio, José Gustavo de Souza Costa, o presidente da Fetranspor, Lelis Marcos Teixeira, a professora da Coppe Milena Bodmer e o conselheiro do Clube de Engenharia, ex-secretário Municipal de Transportes e ex-presidente do Metrô e da CET-RIO, Miguel Bahury, organizador do evento.
O encontro debateu temas como fontes de recursos, prioridades, traçados e a participação da sociedade civil no acompanhamento dos projetos do setor.
Miguel Bahury afirmou que, pela primeira vez nos últimos trinta anos tem-se uma oportunidade única de investimentos maciços em transportes no Rio, com os três níveis de governo atuando em conjunto. “Vamos aproveitá-la”, conclamou.
– Na região Metropolitana do Rio ocorrem cerca de 19,5 milhões viagens/dia, considerando transportes coletivos, individuais e não motorizados, das quais 9,5 milhões de viagens/dia utilizam o transporte coletivo, 3,3 milhões o transporte individual e 6,7 milhões de viagens/dia são feitas à pé, o que corresponde a 34% das viagens diárias. Entre as viagens por transporte coletivo, o transporte por ônibus, municipais e intermunicipais, que deveria ser apenas complementar ao trem e ao metrô, atende a 75% dos passageiros transportados, as vans, 15%, e os transportes de massa (trens e metrô), 10% – disse.
Segundo Bahury, nos últimos 20 anos, a demanda do metrô passou de 400 mil para 500 mil passageiros/dia, enquanto a dos trens da SuperVia, que já transportaram 1,2 milhão de passageiros no passado, caiu para 350 mil passageiros/dia.
– Ou seja, não tivemos a evolução desejada. Enquanto isso, o Metrô de SP, que iniciou na mesma época do Rio, em 1968, já transporta 2,5 milhões de passageiros/dia. Os investimentos federais no transporte ferroviário do Rio caíram de US$ 245 milhões, em 1980, para cerca de US$ 20 milhões e depois minguaram. O metrô, que recebia, em média, US$ 80 milhões/ano, até 1980, após esse período ficou mais de 20 anos praticamente com parcos recursos federais. Essa política é um reflexo do modelo adotado no país desde a década de 30 e acentuadamente a partir da década de 50, que optou por privilegiar o transporte rodoviário. Tal quadro é lamentável num país que, na virada do século XIX para o século XX, construía cerca de 570 km de ferrovia/ano e que, entre 1970 e 2000, construiu apenas 40 km/ano. Hoje, nossa malha ferroviária, de apenas 30 mil km, é bem inferior aos 48 mil km que os EUA possuíam em 1860, às vésperas da guerra de secessão.
AÇÕES CONCRETAS
O secretário estadual de Transportes, Júlio Lopes, disse que o governo estadual não está organizando o transporte público do Rio para as Olimpíadas ou para a Copa do Mundo.
– Os eventos servem para dar um norte ao planejamento. Não adianta apresentar um projeto mirabolante, que não resulte em ações concretas. Nosso projeto envolve investimento de R$ 10 bilhões, que contemplam a modernização de todo o sistema metro-ferrodoviário, a construção de BRT’s (Bus Rapid Transit, da sigla em inglês), a linha 4 do metrô, a reforma de estações e a aquisição de 594 carros metroviários. Portanto, esse é um investimento de grande monta, que vai resultar numa transformação completa da mobilidade pública até 2016 – comemorou.
O secretário falou também sobre os investimentos realizados no metrô.
– A estação General Osório foi entregue com dia, hora e data marcada. Foi a obra mais rápida desse tipo feita no Brasil. Isto só foi possível porque o conjunto do governo atuou na liberação dos recursos e licenças para construção. Essa é a 34ª estação do metrô, com expectativa de 50 mil passageiros, que está se confirmando. São investimentos de R$ 320 milhões. O Governo Sérgio Cabral fez a primeira grande compra de trens desde a inauguração do metrô.
Júlio Lopes explicou que a Linha 4 do metrô será ligado às novas estações Nossa Senhora da Paz, Jardim de Alah, Leblon, Gávea, São Conrado e Jardim Oceânico, agregando mais 240 mil passageiros ao sistema.
– Já estamos com esse processo assinado e em andamento. O governador Sérgio Cabral poderia ter feito, como muitos governos fizeram, um canteiro de obras, cercado praças e vias públicas, colocado uma placa de que a obra vai andar e a obra não começar nunca. O governador disse que a obra vai começar porque a obra de fato vai começar. Daqui a três meses nós vamos estar furando a rocha – garantiu.
O deputado disse que os 164 trens do sistema ferroviário do Rio de Janeiro são obsoletos e insuficientes para atender a população.
– O governo anterior comprou trens, mas não pagou por eles. Quando assumimos, restavam 70 milhões a serem pagos. Pagamos os trens e eles começaram a funcionar. Além disso, fizemos uma enorme compra de trens: a maior já feita em toda a história do estado. Os novos trens chineses, com quatro carros e capacidade de 1.300 passageiros cada um, têm design moderno, monitores internos de LCD e câmeras internas para a segurança da população. Depois vamos comprar outros noventa trens para honrar o compromisso olímpico de 2016.
MEGAEVENTOS
O secretário municipal para as Olimpíadas, Ruy Cesar Miranda Reis, abordou o planejamento que vem sendo feito pelo instituto Pereira Passos desde 2001 para preparar a cidade para os megaeventos que o Rio tinha perdido.
– Identificamos áreas potenciais, rigorosamente observando o plano diretor da cidade, que divide o Rio em quatro macrozonas: Deodoro, Maracanã, Barra e Copacabana. Pensando nisso, construímos desde 2001 um documento chamado Plano de Legado Urbano e Ambiental da Cidade do Rio de Janeiro, com 5.000 intervenções necessárias em todas as áreas. Os dossiês das candidaturas de 2007, 2011, 2014 e 2016 nada mais são do que a transcrição desse plano. A área de transporte foi toda diagnosticada pelos técnicos da prefeitura. Todos os projetos foram referendados pelas entidades esportivas.
Ruy Cesar explicou ainda que, ao contrário do que muitos pensam, no caderno de encargos dos Jogos Pan-americanos não existia a promessa de um veículo leve sobre trilhos (VLT).
– As exigências da Odepa eram as vias seletivas, que foram implantadas com total sucesso no Rio de Janeiro. Tanto que a população se manifestou favoravelmente à permanecia delas. Não vamos fazer intervenções para os Jogos. Vamos fazer intervenções para a cidade dentro daquilo que está planejado para os Jogos. Cada projeto obedeceu rigorosamente as determinações da Lei Orgânica do Município. Quando construímos o Engenhão, a Câmara dos Vereadores aprovou uma profunda alteração na legislação urbana, transformando aquela região de industrial fechada em região de uso misto. Antes do Pan, o metro quadrado nessa região valia R$ 400,00. Hoje em dia vale R$ 1.350,00. O projeto tem um valor estimado de R$ 28 bilhões e a marca forte da unidade dos três níveis de governo – disse.
O presidente do Metrô Rio, José Gustavo de Souza Costa, afirmou que os Jogos Olímpicos atuam como um catalisador para os investimentos que a cidade pretende fazer.
– Na Copa do Mundo são 730 atletas competindo em 10 cidades do Brasil durante um mês. Nos Jogos Olímpicos são 10 mil atletas competindo durante 15 dias numa só cidade. Isto equivale a 35 campeonatos mundiais sendo realizados ao mesmo tempo. É fácil entender que o desafio é muito maior. Quando ao desafio dos transportes na final da Copa do Mundo, que será realizada no Maracanã, supondo que estejamos na final, seria mais fácil de resolver. O metrô não funcionaria no momento do jogo, já que todos estarão assistindo, e deixaremos todos os trens enfileirados. Quando o jogo terminasse, sairia um trem atrás do outro. Já os Jogos Olímpicos serão realizados em toda a cidade, aí incluídas áreas que o metrô não cobre, como, por exemplo, a Barra. O metro chegará até o Jardim Oceânico, mas não existe plano de ele seguir em frente. Teremos que fazer – esse talvez seja um dos grandes desafios – uma estação intermodal importante na Barra. Não é que seja uma necessidade só para os Jogos Olímpicos. É uma necessidade para a cidade. Estamos falando de uma demanda do tamanho de 250, 300 ônibus por hora nos horários de pico. Temos um desafio muito grande para os Jogos Olímpicos, que está sendo enfrentado pelos três níveis de governo. A própria ligação da Linha 4 não estava contemplada em nosso projeto para o Comitê Olímpico. Nossa obrigação seria construir um BRT. Esse é o legado. Acabando os jogos, teremos uma série de coisas fantásticas na cidade. Sou membro do Comitê Olímpico, Já estive em três olimpíadas e cada uma delas provocou mudanças profundas na cidade onde ocorreram, como Barcelona e Tóquio.
INFRAESTRUTURA DE TRANSPORTE
O presidente da Fetranspor, Lelis Marcos Teixeira, destacou que os Jogos Olímpicos permitem que repensemos a infraestrutura de transporte.
– Mas essa infraestrutura não deve se restringir à Barra, ou às quatro regiões onde teremos os jogos. Ela tem que beneficiar todos os habitantes da cidade. Se possível também da região metropolitana. O transporte tem que ser fácil, acessível, democrático e que chegue com qualidade à maioria das pessoas e não apenas nos pontos onde serão realizados os jogos. Outro projeto previsto nos Jogos Olímpicos é o corredor “Linha C”, que liga a Barra a Deodoro. Um estudo sobre transportes na Zona Oeste chamou a atenção pelo número de habitantes da região: Santa Cruz, Campo Grande e Bangu tem, juntos, 1 milhão e 600 mil habitantes. É uma outra cidade dentro da cidade, uma outra realidade que precisa de um sistema de transporte que atenda a essa população.
Lelis Marcos Teixeira ressaltou que 75% do transporte no Rio é feito por ônibus.
– Encomendamos um projeto à equipe do arquiteto Jaime Lerner, ex-prefeito de Curitiba, onde se procura entender as características de cada bairro, possibilitando, por exemplo, o ressurgimento da Avenida Brasil. Um projeto que pudesse recuperar partes da cidade, integrando o planejamento urbano ao planejamento de transporte, e não a projetos isolados.
A professora da Coppe Milena Bodmer disse que o transporte não se justifica por si próprio, mas que existe porque existem atividades econômicas na cidade.
– Em relação ao projeto, gostaria de dar os parabéns ao Comitê Olímpico. O projeto traz uma serie de elementos estruturantes que pensam no planejamento estratégico da metrópole. Há um compromisso claro de executar. Não se pode parar, nem atrasar. Esse plano nos propicia a grande oportunidade de elaborar a primeira fase daquilo que desejaríamos como modelo para a região metropolitana. Dois princípios deveriam ser seguidos: pensar na mobilidade urbana sustentável e desenvolver novos modelos de gestão.
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