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Professor Titular apresenta aos conselheiros do Clube o Plano Diretor UFRJ 2020
O economista e sociólogo Carlos Vainer, professor titular do Instituto de Pesquisas e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro e membro do Conselho Universitário da UFRJ proferiu, na reunião do Conselho Diretor do dia 5 de outubro, a palestra “O plano diretor UFRJ 2020 – Uma universidade integrada que se integra à cidade”.
O professor afirmou que nos anos 40 a opção de colocar a UFRJ numa ilha expressava a vontade de manter distância da vida urbana, de impedir que a “vida citadina poluísse o quotidiano de estudantes e professores”.
– Nos anos 70, sob o regime militar, o isolamento ganhou outro sentido: impedir que o vírus da resistência democrática universitária contaminasse a cidade. De um lado, o elitismo bachaleresco, agravado sob a ditadura, que reduziu o lugar e o papel das universidades públicas na oferta de vagas no ensino superior. De outro, e isso vale para a cidade e para o estado, os governos não foram capazes de vislumbrar as enormes possibilidades que uma cooperação sistemática e abrangente poderia trazer para nosso desenvolvimento econômico, social e cultural.
De acordo com o palestrante, no início dos anos sessenta, as universidades públicas representavam em torno de 80% das vagas do ensino superior. Ao final dos anos oitenta e ainda hoje representam exatamente o contrário: apenas 20% do total. Mas, para o economista, esta mudança não significou uma melhoria de nosso ensino superior. Ele afirmou que idéias básicas do Plano Diretor UFRJ 2020 se expressam na frase “Uma universidade integrada que se integra à cidade.
– O problema da desintegração da universidade vis a vis da cidade é também refletida no interior da nossa própria universidade através de um processo profundo de fragmentação. Essa fragmentação tem uma origem histórica, num certo sentido, porque nossa universidade, diferentemente de outras, não surgiu de um projeto universitário, mas da unificação de uma série de escolas. Mas não é apenas uma herança. Ao longo do tempo essa fragmentação se aprofundou à medida que a universidade avançava, contrapondo graduação x pós-graduação, ensino x pesquisa e engenharias e ciências biomédicas x humanidades e ciências sociais. Eu brinco sempre dizendo que estamos numa ilha. Estamos insulados física e simbolicamente. Dentro da nossa universidade também temos uma série de ilhas insuladas no interior de uma ilha maior. Mesmo esse projeto não se completou, pois uma parcela expressiva de nossa universidade continua espalhada no tecido urbano, com alguns núcleos na Praia Vermelha e muitas outras unidades isoladas. Entre as mais famosas estão o Instituto de Filosofia e Ciências Socais (IFCS), sediado no antigo prédio da Escola de Engenharia, e a Faculdade Nacional de Direito, no Campo de Santana, entre várias outras escolas.
UNIDADE ECONÔMICA
A UFRJ conta atualmente com 50.000 estudantes, 3.499 docentes, 8.348 servidores técnico-administrativos além de 1.328 empregados em empresas prestadoras de serviços. Seus hospitais empregam 4.413 funcionários, além de 1.253 prestadores de serviços, e realizaram em 2007 cerca de 380 mil atendimentos ambulatoriais, 10.755 cirurgias, 25.405 internações. A universidade é um dos principais proprietários de terra da cidade, com mais de 7.000.000 m2, 5.238.338 m2 dos quais na Ilha do Fundão – o bairro de Copacabana, como comparação, tem 4.110.000 m2. A folha salarial anual da UFRJ gira em torno de R$ 1,2 bilhão, incluindo ativos e inativos.
– Costumo dizer que qualquer um recebe favores fiscais dos governos federal, estadual e municipal e nossa universidade, que é uma grande unidade econômica, é tratada pior do que o botequim da esquina. A UFRJ não tem mais porta de entrada, só porta dos fundos. Isto ocorreu depois da implantação das duas vias expressas que nos estrangularam. A Ilha do Fundão é uma grande área disponível, numa zona da cidade absolutamente consumida, mas precária e carente de equipamentos.
Carlos Vainer disse que as diretrizes gerais do plano contemplam uma dupla dimensão da integração.
– Não é mais possível, por exemplo, que estudantes de engenharia ou medicina não possam fazer um curso de ciências sociais ou vice-versa. Evidentemente isso só é possível se nos dermos conseqüência espacial ao fato de sermos uma universidade e não um somatório de escolas isoladas. Essa dupla dimensão da integração significa integração interna da UFRJ e integração da UFRJ à cidade, ao estado e ao país. A universidade é um grande proprietário fundiário. Hoje, infelizmente, ainda de muita terra improdutiva. Um das idéias é que esse plano coloque essa terra “em produção”. Somos também detentores de edificações de grande valor histórico e patrimonial, muitas delas em estado de degradação acelerado, pela incúria, pela falta de recursos e pela falta de perspectiva.
O plano diretor UFRJ 2020 prevê três vetores: um Plano de Desenvolvimento da Cidade Universitária, um Plano de Ocupação e Uso da Praia Vermelha e um Plano de Ocupação e Uso das Unidades Isoladas.
– O plano prevê que a população universitária pule de 53 mil para quase 110 mil pessoas em 2020. É bom lembrar que a Ilha do Fundão é procurada por um grande número de usuários de nossos serviços, em particular dos hospitais, e também por uma série de empresas, principalmente estatais. Mas sabemos que aquela ilha é hostil, desagradável e não é um espaço acolhedor e urbano. A idéia central é fazer da Cidade Universitária simplesmente uma cidade! Uma cidade que gira em torno da atividade universitária, mas ainda assim uma cidade. E que tenha atributos de uma cidade, como equipamentos culturais, esportivos e de lazer, comércio, serviços, espaços de encontro, residências e restaurantes que atendam à comunidade universitária mas também às comunidades vizinhas e à cidade do Rio de Janeiro como um todo.
MOBILIDADE E ACESSIBILIDADE
Para o também sociólogo, a questão chave para que esse projeto se realize é a idéia da mobilidade e acessibilidade universais.
– Temos que assegurar um acesso à Cidade Universitária. Na nossa convicção isso supõe uma visão intermodal e plurimodal, cujo núcleo central deve ser um acesso metro-ferroviário, que conecte a cidade com os grandes eixos de acesso. É também necessário implantar o transporte hidro-viário, pois nossos principais campi estão às margens da Baía de Guanabara. Em nossa visão é preciso escapar da concepção rodoviarista, hoje condenada no mundo inteiro. São necessárias alternativas. Vamos trabalhar sobre elas e contamos com o Clube como aliado.
De acordo com o representante da UFRJ, deve ser dada prioridade ao “transporte ativo”, de modo que os deslocamentos de curta e média distância possam ser feitos de “bicicleta, à pé, de skate ou patins, como nas grandes cidades do mundo”. Já a circulação poderia ser feita por outros meios que não “os ônibus lamentáveis, que tem um custo ambiental”.
– Queremos uma cidade com conexões entre equipamentos e edificações com redes de comunicação e transmissão de dados, mas com caminhos e trajetos agradáveis. Queremos fazer de nossa cidade universitária um lugar de encontros entre o engenheiro, o físico, o assistente social, a nutricionista, entre estudantes, professores, servidores, entre universitários e não universitários. É uma idéia que rompe totalmente com a idéia de um campus isolado ou separado da vida urbana. E para que nos encontremos é necessário que os espaços sejam densos.
Para Carlos Vainer, a UFRJ é um centro avançado de pesquisas, mas muitas vezes não pratica aquilo que ensina.
– Devemos ter dez dos melhores grupos de pesquisa na área de ciências sociais contra o trabalho do menor, mas nos deparamos com crianças lavando automóveis na cidade universitária. Temos pesquisas avançadas sobre coleta seletiva de lixo premiadas no mundo inteiro, mas misturamos todo nosso lixo e jogamos de qualquer jeito. Ou seja, não praticamos na nossa cidade universitária aquilo que sabemos e queremos ensinar aos outros. Trata-se, portanto, de fazer da nossa cidade uma espécie de espelho e vitrine do avanço tecnológico e das inovações nas áreas científica e cultural que nossa universidade já produz.
“CAMPUS DE SEGURANÇA MÁXIMA”
O professor revelou que durante os debates do Plano dois caminhos bastante opostos foram apresentados.
– Vou chamar um de “campus de segurança máxima”, que começou a ser feito em outra gestão, há alguns anos atrás, que consistia em cercar a universidade e colocar guaritas para virarmos um “condomínio fechado”. Ao contrário, é preciso integrar o campus ao espaço urbano, aumentar seus usos e sua densidade e assim gerar ocupações e usos múltiplos, de manhã, de tarde e de noite, que façam com que a vida urbana seja o elemento fundamental da nossa segurança.
Queremos que nossa cidade universitária tenha um centro comercial, mas que seja também um centro cultural, com cinema e teatro. Temos muito espaço enquanto de 600 a 700 mil pessoas em nosso entorno não tem cinema, teatro, biblioteca ou espaço de lazer. A idéia é trazê-los para dentro da nossa cidade. Fazê-los viver a vida universitária a seu modo. Queremos que as crianças entrem na universidade antes do vestibular, para querer amar a universidade e participar dela. Temos muito espaço mas não temos vida. A cidade tem muita vitalidade, mas às vezes falta espaço. Queremos trocar vida por espaço. Tragam-nos vida e nós lhes daremos espaço!
O economista lembrou ainda que a Ilha do Fundão tem um pólo tecnológico.
– Estamos fazendo coisas que nunca tínhamos feito, reunindo o Cenpes, o Cepel e o Cetem, entre outros, para discutir nossos problemas comuns, numa espécie de consórcio da Cidade Universitária.
O professor ressaltou que o plano prevê ainda a realização de obras e serviços de infra-estrutura na Cidade Universitária com a implantação de sistemas de telefonia, telecomunicações, iluminação pública, energia elétrica, segurança pública, água, esgoto, drenagem e sistemas de coleta, tratamento e disposição de resíduos.
– Durante quase vinte anos a universidade não recebeu um tostão para investir. Recebia uma verba de custeio precária. Atualmente recebemos R$ 150 milhões para fazer investimentos, coisa absolutamente inédita. E há comprometimento no Orçamento Plurianual da União de investimentos expressivos da fonte que consideramos fundamental para o financiamento da educação pública no país, que é o estado nacional.
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