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Almoço de março homenageia Colégio de São Bento e Dia Internacional da Mulher
A diretoria de Atividades Sociais promoveu, no dia 26 de março, almoço em homenagem ao Colégio de São Bento e ao Dia Internacional da Mulher. Fizeram parte da mesa principal o presidente do Clube de Engenharia, Heloi Moreira, o engenheiro e reitor do Colégio de São Bento, Dom Tadeu de Albuquerque Lopes, a diretora do Clube Margarida Lima, além de integrantes da turma de 1951 da Escola Nacional de Engenharia (ENE) Afonso Escobar Beviláqua, Isaac Chut, João Batista Pizarro Drumond e Moacyr Varejão.
A diretora do Clube Margarida Lima falou sobre o Dia Internacional da Mulher, ressaltando o preconceito de gênero que ainda se manifesta nas relações sociais.
– Há pouco tempo vi um casal incentivando seus filhos numa atividade. Ao menino diziam “mostra o quanto você é um campeão”. À menina decretaram “mostra como você é bonita”. Levei um susto e pensei: “meu Deus, ainda hoje eu ouço isto!”. Na verdade, penso exatamente como Fritjof Capra em seu livro “O Ponto de Mutação”. O mundo precisa mudar porque o modelo cartesiano que nele existe não esta dando conta de todas as dificuldades pelas quais passamos – disse.
Segundo Margarida Lima, essa mudança será fruto de três vetores: feminino, ambiental e o ligado à filosofia oriental.
– Os valores femininos, que começam a ser reconhecidos, são frutos de um trabalho árduo que já dura sessenta anos. No meio ambiente é preciso mudar a relação de lutar “contra” o meio ambiente para que possamos conviver “com” o meio ambiente. Por isso, nós mulheres, velhas e novas, temos a responsabilidade de melhorar este mundo. Cumprimento todas as mulheres que aqui estão e também me sinto cumprimentada por tudo de belo que já fizemos e que ainda faremos por esta terra – disse.
O reitor do Colégio de São Bento, Dom Tadeu de Albuquerque, que também é engenheiro da turma de 1951 da ENE, revelou que, depois que se formou trabalhou cinco anos viajando pelo país.
– Nessa época me encontrei no Paraná com meu colega Afonso Bevilaqua, aqui presente. Trabalhávamos em trechos vizinhos, eu abrindo caminho para uma estrada de ferro e ele remendando as pontes que faziam a ligação entre Curitiba e Paranaguá. Embora eu trabalhasse sempre no interior, era obrigado a me mover de uma cidade a outra, buscar coisas, e até resolver problema de banco. Depois apareceu essa idéia da vida religiosa, na qual já estou há cinquenta anos. Ao entrar para o mosteiro, o que eu tinha em vista era um pouco fugir das coisas do mundo. No começo tive o que pedi: incumbências internas. Tomava conta das manilhas quebradas e dos canos do mosteiro. Mas, em 1967, o abade me pediu para tomar conta da sétima serie. Foi o início da minha vida no colégio. Hoje recordo esse passado diante de vocês, revendo rostos, historias e encontros. O Gilberto Paixão conheço desde a década de quarenta. Os outros encontrei na escola. É gente que conheci com menos de 17 anos. Hoje estamos com mais de oitenta.
AUTORIDADE ESCLARECIDA
Dom Tadeu também falou sobre seu antecessor no cargo de reitor, Dom Lourenço de Almeida Prado, falecido em janeiro.
– Era uma pessoa extraordinária. Dizia: “se um garoto tem capacidade para estudar no São Bento não é sua situação econômica que vai privá-lo disso”. Dom Lourenço tinha uma autoridade esclarecida, iluminada.
O presidente do Clube de Engenharia, Heloi Moreira, entregou a dom Tadeu uma placa com os seguintes dizeres: “Ao colégio de São Bento, na pessoa de seu reitor, dom Tadeu de Albuquerque Lopes, as homenagens do Clube de Engenharia pelo extraordinário trabalho na formação educacional, social e espiritual de parte expressiva da nossa juventude”.
Antes de proferir seu discurso, Heloi destacou a presença no almoço, mais uma vez, de alunos do curso de engenharia da UERJ. O presidente do Clube afirmou que o Colégio de São Bento, desde sua fundação, em 1858, tem sido uma das grandes referências do ensino fundamental e médio no Brasil.
– Das suas salas saíram inúmeros profissionais. Seria bastante interessante se soubéssemos quantos profissionais da área tecnológica, engenheiros, arquitetos, geólogos, agrônomos, cartógrafos, químicos, entre outros profissionais, o Colégio de São Bento já forneceu ao país. Curiosamente, o colégio foi criado no mesmo ano que a Escola Central, no Largo de São Francisco de Paula. A Escola Central marca a separação entre os ensinos de engenharia militar e civil e deu origem à escola Polytechnica. Esta aí a raiz da sua forte ligação com a construção do Brasil. Impressiona a sua infraestrutura física e pedagógica. Só para exemplificar, sua biblioteca, com mais de 30.000 volumes, e aberta até aos sábados, coloca-o em um patamar superior no cenário da educação brasileira - destacou.
AMBIENTE INTELECTUAL
Heloi Moreira lembrou que o Colégio de São Bento foi dirigido por dom Lourenço durante cerca de meio século.
– Era figura das mais significativas na nossa educação e que faleceu recentemente. Gostaríamos de fazer breves citações sobre Nelson de Almeida Prado, o querido Dom Lourenço. Nasceu no interior de São Paulo. Quando fez seus estudos iniciais, manifestou profundo interesse pela matemática, o que levou a se pensar que estivesse destinado à engenharia. Contudo, foi na faculdade de medicina do Rio de Janeiro que se matriculou e se formou em 1935. No Rio, onde chegou em 1929, Nelson residiu, enquanto universitário, no Catete. Naquele tempo o bairro abrigava numerosos estudantes paulistas e mineiros, que enchiam o célebre Café Lamas com “uma boemia de mesadas curtas, longas conversas e algum bilhar”, no dizer do próprio Dom Lourenço. Ao iniciar seu curso foi atraído pelos escritos de Tristão de Athayde e começou a dedicar-se, também, a estudos mais gerais. Conheceu e fez amizade com Sobral Pinto, Hamilton Nogueira, Henrique Hagreaves, Barreto Filho e outros. Plenamente inserido no ambiente intelectual católico, que tinha como quartel-general o Centro Dom Vital, Nelson foi um dos fundadores e, logo depois, diretor da revista universitária “Vida”, na qual colaboraram, além de universitários, homens de letras e intelectuais de nossa terra – afirmou.
Heloi lembrou que em torno de Dom Martinho, que viria a tornar-se abade do Mosteiro em 1948 agruparam-se alguns jovens recém-formados, encantados com uma nova visão da liturgia.
– Onze rapazes desse grupo ingressaram no mosteiro. Sobre esse fato, muito comentado na sociedade carioca da época, ficou famosa a entrevista, dada em 1941 por Alceu Amoroso Lima ao hoje extinto “O Jornal”, intitulada “de doutores a monges”. Formado em medicina, Nelson exerceu sua profissão como médico da assistência municipal do Rio de Janeiro, até sua entrada para o mosteiro. Teve sua primeira experiência na área educacional ao ser nomeado assistente do reitor Alceu Amoroso Lima, na Universidade do Distrito Federal. Em 1940 entrou para o mosteiro, fazendo seus estudos na fazenda de Três Poços, onde teve a oportunidade de praticar medicina com dezenas de camponeses que o procuravam.
PROJETO PEDAGÓGICO
Segundo Heloi, Dom Lourenço foi ordenado sacerdote em 1946, mas só em 1947 concluiu os estudos teológicos. No mosteiro, disse, exerceu, entre outros, o ofício de auxiliar de enfermagem.
– Mas o que marcou sua vida para sempre foi a carreira de professor de latim, filosofia, ciências e religião. Em 1955, com a saída de Dom Basílio Penido da reitoria, foi indicado reitor. No dizer de Dom Marcos Barbosa, por ocasião dos oitenta anos de Dom Lourenço, “se dissessem, meio século atrás, do jovem médico Nelson de Almeida Prado, que ele iria escrever sobre pedagogia, sem dúvida acabaria como predição tão vã como a dos astrólogos e cartomantes”. Foi sem dúvida uma determinação do abade superior do mosteiro que tornou Dom Lourenço professor e depois reitor, levando-o a descobrir dentro de si, e a cultivá-lo, esse desejo que todos trazemos, quase naturalmente, de transmitir aos outros o que sabemos. Exerceu várias tarefas e encargos no âmbito educacional, em nível estadual e federal. Foi ainda autor de vários livros com temática educacional.
Em 2002, prosseguiu o presidente do Clube, cheio de méritos e já alquebrado pela idade, Dom Lourenço recolheu-se ao mosteiro “como se tivesse concluído uma tarefa, depois de 55 anos de trabalho, 45 deles como reitor”.
– Hoje o Colégio de São Bento, dirigido por Dom Tadeu, conta com 1.100 alunos, a maioria estudando em tempo integral. Seu projeto pedagógico é referência para a educação brasileira. Embora seja uma instituição católica, a maioria de seus professores são leigos. Gostaríamos que o evento de hoje construísse neste Clube mais um sonho e se transformasse em mais uma luta por um Brasil melhor. Que as autoridades responsáveis pelo ensino público dos nossos jovens se inspirem no modelo pedagógico do Colégio de São Bento para a formulação de suas políticas educacionais – finalizou Heloi.
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