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Conselheiro diz que crise financeira internacional foi causada por especulação e falhas de regulação
O coordenador geral da Escola de Políticas Públicas e Governo (EPPG/Iuperj/Ucam) e conselheiro do Clube de Engenharia Luiz Alfredo Salomão proferiu, na reunião do Conselho Diretor do dia 13 de outubro, palestra sobre "A crise americana e os riscos para o mundo". Segundo o engenheiro, a crise está acontecendo por conta do "cassino, da especulação e das distorções do mercado financeiro propiciadas por falhas de regulação".
Analisando o processo histórico que resultou na atual crise, ele lembrou que, em 1965, o Brasil copiou o sistema de poupança e empréstimo norte-americano para fazer o Sistema Financeiro da Habitação.
– Naquela época, os EUA tinham uma agência estatal, Fannie Mae (FNMA-Federal National Mortgage Association), criada em 1938 como estatal e privatizada em 1968, além de doze bancos federais de empréstimo imobiliário, criados em 1932 por Roosevelt, e hoje privatizados. A Freddie Mac (FHLMC-Federal Home Loan Mortgage Corporation) foi criada em 1970, já como empresa privada. Juntas, FNMA e FHLMC possuem ativos que representam US$ 5 trilhões em hipotecas.
Salomão, que já foi deputado federal e secretário estadual de Transportes, disse que essas agências e os bancos foram induzidos a emprestar "mais do que seria prudencial".
– A concessão de crédito a pessoas sem condições de recebê-lo, que foram denominadas hipotecas subprime, e a demanda superaquecida gerou uma bolha de super-valorização dos imóveis. A partir de 2005, o Banco Central americano (FED) começou uma trajetória de alta dos juros. As hipotecas subprime tiveram suas prestações reajustadas e os devedores não tiveram renda disponível para pagar – explicou.
Segundo o ex-deputado, a inadimplência na faixa subprime se alastrou em 2006 e se intensificou em 2007 e 2008.
– Os preços despencaram e muitas famílias "faliram". A inadimplência levou os bancos e agentes de crédito imobiliário a não saldarem suas dívidas. E numa crise de crédito ninguém empresta! As ações da Fannie e Freddie na Bolsa de N. Iorque despencaram e a crise alcançou Bearn Stern, Lehman Brothers, Wamu, Wachovia, Merril Linch e AIG. Na Europa, Northern Rock, Fortis, Glitnir e Hypo não resistiram – disse.
OBAMA
Salomão destacou que, ao contrário do que tem sido dito, o mercado de crédito hipotecário é bastante regulado nos Estados Unidos.
– O problema é que a regulação incentivava empresas como Fannie Mae e Freddie Mac a emprestarem mais justamente às áreas pobres do país. A carteira de subprime das duas saltou de 8 para 20% do total de ativos. Falharam o Office of Federal Housing Enterprises Oversight (OFHEO), o FED, as agências de avaliação de risco (rating) como S&P, Ficht, e Moody's, e a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (Securities and Exchange Comission – SEC).
Luiz Alfredo Salomão alertou para o sensacionalismo de algumas instituições em relação ao montante dos prejuízos.
– O FMI fala em US$ 12,2 trilhões a serem financiados aos bancos para promoverem a desalavancagem – venda, financiamento de ativos ou aumento de capital. Os mercados de câmbio hoje em dia movimentam diariamente US$ 2 trilhões, dos quais apenas 5% correspondem ao fechamento de câmbio relativo ao comércio internacional e ao investimento externo direto (US$ 100 bilhões) e 95% correspondem a investimentos financeiros. Ou seja, apenas 5% desses recursos se referem a operações de "carne e osso" – comparou.
O coordenador da Escola de Políticas Públicas e Governo analisou também as diferenças entre a crise de 1929 e a atual.
– As economias estão muito mais interdependentes. Nos anos 30 cada país adotou medidas protecionistas. É provável que até o final de 2008 haja um ajuste do crédito mundial, com a ocorrência de muita intervenção estatal do tipo "Keynesiana moderna" e a encampação pelos estados de bancos e empresas em dificuldades financeiras. A redução da demanda certamente vai afetar o investimento. Por isso, é necessário um novo “New Deal” em escala mundial. A eleição de Barak Obama pode contribuir para isso. O gasto federal (apenas federal) dos EUA é hoje equivalente a 20% do PIB, enquanto em 1930 era de apenas 3%.
O conselheiro alertou ainda para o perigo representado pelos "monstruosos" déficits externo e fiscal norte-americanos, os chamados "déficits gêmeos".
– Se os títulos do Tesouro americano, que são financiados por japoneses, chineses e outros asiáticos pararem de serem subscritos, isto sim poderia detonar uma crise de grandes proporções. Imaginem se a essa crise financeira vier a se somar a crise fiscal e de balanço de pagamentos dos americanos. É um paradoxo que o papel mais seguro do mundo, o C-Bond, seja oriundo de um país que tem brutais déficits fiscais e de balança de pagamentos. Mas, se o mercado acordar e o risco-país norte-americano aumentar em razão dos déficits gêmeos, a questão vai ser muito mais dramática. Se fosse feito um ajuste abrupto no mercado americano para zerar o déficit, o primeiro a sofrer será quem exporta, pois eles inundariam o mercado com suas exportações. Aí quebra todo mundo. Essa é outra bolha monstruosa – advertiu.
AÇÕES CONJUNTAS
Salomão também debateu com os conselheiros do Clube as recomendações do Fundo Monetário Internacional (FMI) aos governos dos países afetados.
– Se pegarmos aquelas páginas do resumo executivo e torcermos, não sai nada. É um blá-blá-blá. Para o FMI é o livre mercado que resolve e promove a vitória do mais forte e do mais capaz. Eles falam na necessidade de ações conjuntas, coerentes e que não provoquem prejuízos a outros países, mas se recusam a usar a palavra "cooperação", que os europeus não temem utilizar. Mas é disso que se está falando. O Fundo Monetário também quer garantir que as intervenções governamentais de emergência sejam temporárias e que protejam os interesses dos contribuintes – não dos acionistas, que devem pagar por terem permitido a seus administradores praticarem uma administração ruinosa. Eles pregam também a liquidação ordenada das instituições inviáveis e o reforço do marco institucional de estabilidade macrofinanceira para melhorar a supervisão e a regulação em escala nacional e mundial.
Para o engenheiro, a situação brasileira é bem mais favorável do que durante as recentes crises que o país atravessou.
– As reservas cambiais do país somam hoje cerca de US$ 200 bilhões e as finanças públicas estão melhor arrumadas. Mas existem diversas vulnera-bilidades, como os US$ 600 bilhões de recursos externos aplicados na dívida pública brasileira. O consumo mundial vai se reduzir e haverá uma queda dos preços das commodities agro-industriais, minerais, energéticos e de outros produtos industriais que o Brasil exporta e importa. Esse quadro ameaça o superávit do balanço de pagamento brasileiro.
Para evitar a propagação da crise para o Brasil e o mundo e como forma de mitigar seus efeitos, Salomão propõe, entre outras ações, quarentena para os recursos estrangeiros aplicados no Brasil e aplicação de uma política macroeconômica que assegure a não deterioração de fundamentos econômicos do país como a inflação e o equilíbrio fiscal e cambial. Além disso, o ex-deputado alerta para a necessidade de um orçamento realista, uma taxa de cambio competitiva e controle de qualidade do gasto público.
– Não se pode ficar nessa brincadeira de câmbio supervalorizado. As importações precisam manter o seu dinamismo. Aliás, resolveu-se o problema dos exportadores com a crise. Ninguém pode reclamar mais. É preciso ainda reforçar a poupança interna, com incentivos à poupança das famílias e empresas, e aperfeiçoar o funcionamento de instituições como o BNDES e a Caixa Econômica, entre outras. Essas são as ações que acredito deveriam ser priorizadas até termos uma noção de qual vai ser o efeito líquido na balança comercial e impedir que aconteça o estrangulamento cambial.
Segundo Salomão, toda vez que o Brasil decolou, foi "um vôo de galinha", que, por conta do estrangulamento cambial, acabava cortando o desenvolvimento.
– Dessa vez temos boas reservas. Não podemos permitir que elas sejam queimadas irresponsavelmente para financiar empresas lá fora ou fazer um "fundo soberano". Muito cuidado com essas reservas. Elas são preciosas e custam caro. Não podemos permitir que o Brasil sofra de novo em seu processo de crescimento por conta do estrangulamento cambial. É preciso também ter cuidado com o modelo de desenvolvimento do governo Lula, porque ele está apoiado, como foi o governo Fernando Henrique, em concessões, PPP e investimentos estrangeiros diretos. Essas coisas, por algum tempo, vão ficar na gaveta. Excetuando-se o setor de petróleo, projetos como as concessões rodoviárias, que demandam engenharia financeira e capital de bancos estrangeiros, vão sofrer um baque, com atrasos e formulações – previu o ex-deputado.
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