Professor da Unicamp desenvolve novo catalisador para produção de biodiesel
Rendimento obtido alcança casa dos 99%

Foto: Antoninho Perri – Ascom – UnicampA Unicamp anunciou o licenciamento da tecnologia de um catalisador de alto desempenho capaz de transformar gordura animal e óleos vegetais em biodiesel. A tecnologia foi desenvolvida pelo professor da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da Unicamp, Antonio José da Silva Maciel, em parceria com seu aluno de doutorado, Osvaldo Candido Lopes. Até o final do ano deve começar a funcionar em Campo Verde, Mato Grosso, uma usina de produção de biodiesel que utilizará um novo catalisador, substância química imprescindível para a transformação do óleo vegetal, extraído de grãos oleaginosos e gordura animal, em biocombustível.

– Normalmente, as técnicas disponíveis proporcionam um rendimento inferior a 95%. Além disso, os catalisadores presentes no mercado induzem a formação de resíduos indesejados, como sabão ou emulsão. No caso do nosso catalisador, isso não ocorre. O rendimento obtido nos testes que realizamos ficou na casa dos 99%" – assegura o professor Maciel.

O uso do etanol, o álcool da cana-de-açúcar, matéria-prima plenamente renovável ao contrário do metanol que é extraído do petróleo ou do gás natural, poderá ser feito com melhor aproveitamento em relação aos catalisadores convencionais.

O catalisador desenvolvido pelos pesquisadores da Unicamp tem a função de promover o que os especialistas chamam de transesterificação. De maneira simplificada, o processo cumpre as seguintes etapas. Primeiro, é adicionado um álcool simples (etanol, no caso) à matéria-prima. Depois, junta-se à mistura o catalisador. Em seguida, uma reação química quebra a cadeia de carbono da gordura animal ou do óleo vegetal, dando origem a dois produtos nobres distintos: biodiesel e glicerina. Esta última é muito utilizada pelas indústrias farmacêutica e de cosméticos. Segundo o professor Maciel, a tecnologia em questão apresenta duas significativas vantagens sobre os métodos convencionais de produção de biodiesel.

SEGREDO

Quanto aos ingredientes do produto, tanto Lopes como Maciel fazem segredo.

– A primeira característica em relação aos outros catalisadores é não possuir metal na sua composição. Assim ele não produz um dos contaminantes da produção que é o sabão. Com ele é possível produzir biodiesel com etanol ou metanol em larga escala a partir de matérias-primas, óleos vegetais ou gordura animal, sem a exigência de alta pureza, comum a outros catalisadores. É um produto de terceira geração. A primeira, da década de 1920, é de hidróxido de sódio ou de potássio. A segunda, utilizada hoje, é a de metilato de sódio e potássio, criada na década de setenta – diz Lopes.

Ele lembra que a busca por combustíveis renováveis não é um desafio novo para a ciência. Rudolf Diesel, engenheiro alemão que concebeu o motor à combustão, usava em suas experiências óleo extraído do amendoim. Na Unicamp, as pesquisas em torno dos biocombustíveis remontam praticamente à fundação da Universidade, ocorrida em 1966. Em 1969, por exemplo, o então professor da FEA Leopoldo Hartman publicou um artigo importante sobre transesterificação de óleos vegetais. "Como se vê, temos tradição nesse tipo de estudo".

CERTIFICAÇÃO

Um dos principais objetivos do professor Maciel é a implantação, na Unicamp, de um laboratório para a certificação de biodiesel. De acordo com ele, a missão do laboratório seria prestar serviços à indústria por meio da análise do biocombustível, mas também teria um forte caráter acadêmico, pois possibilitaria a realização de inúmeras pesquisas. A certificação, diz, asseguraria tanto aos fabricantes quanto aos consumidores a qualidade final do produto.
A BioCamp Indústria e Comércio de Biodiesel Ltda, licenciada pela Unicamp ergueu, em tempo recorde, uma usina para a produção de biodiesel considerada modelo em Campo Verde, Mato Grosso. Em menos de um ano, a unidade, que é totalmente automatizada, ficou pronta para entrar em operação.

Segundo a empresa, a usina também ajudará a impulsionar a agricultura familiar da região. Cerca de 700 famílias de agricultores estarão envolvidas na produção do biodiesel. A empresa doará perto de 100 quilos de pinhão manso para o plantio. Depois, comprará a safra, que servirá de matéria-prima para a geração do biocombustível. Inicialmente, explica o professor Maciel, a produção será feita a partir do óleo de girassol. Mas a usina poderá utilizar qualquer óleo vegetal, como mamona, soja, ou mesmo óleo usado de cozinha. No caso da BioCamp, como um dos sócios é proprietário de frigorífico, um dos principais insumos para a obtenção do biodiesel será o sebo bovino.

O investimento da BioCamp na produção de biodiesel está alinhado com o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB), ação interministerial lançada pelo governo federal em 2005. O objetivo do PNPB, como o próprio nome indica, é implementar de forma sustentável, tanto técnica como economicamente, a produção e a utilização de biocombustível, com enfoque na inclusão social e no desenvolvimento regional, via geração de emprego e renda. Estimativas preliminares dão conta da formação de um mercado da ordem de R$ 1,2 bilhão por ano no país.

A Unicamp já firmou o segundo contrato de licenciamento, também em Mato Grosso, com a Cooperativa de Biodiesel (Cooperbio), de Cuiabá, que reúne 500 associados e foi formada pela Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão (Ampa). O objetivo da cooperativa é produzir biodiesel para consumo próprio na frota de caminhões e máquinas agrícolas dos associados (Fonte: Unicamp).


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