Cedae, com apoio da Coppe, vai produzir biodiesel a partir do esgoto
Companhias querem passar de problema a solução

Wagner VicterA Companhia Estadual de Água e Esgoto do RJ (Cedae) anunciou a implantação, este mês, na Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) de Alegria, localizada no bairro do Caju, uma unidade-piloto para testar a viabilidade econômica da produção de biodiesel a partir de gordura extraída do esgoto doméstico. O projeto conta com suporte técnico da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe-UFRJ). Segundo o presidente da estatal e conselheiro do Clube de Engenharia, Wagner Victer, as perspectivas são positivas para a abertura dessa nova frente de negócios, com enfoque na proteção ambiental.

– Estamos fazendo história com esse projeto. As gorduras presentes no esgoto, em vez de serem tratadas com produtos químicos, terão seu valor energético aproveitado. Com essa iniciativa estaremos assegurando ganhos ambientais ao Estado e abrindo caminhos para uma nova plataforma de negócios na Cedae. Iniciamos contatos com a BR Distribuidora, que demonstrou interesse no produto. Após a análise de viabilidade econômica, buscaremos certificação pelo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) do Protocolo de Kioto, para negociação futura de créditos de carbono – disse.

O esgoto que chega às estações de tratamento é dividido em uma parte líquida, escuma – formada por materiais como gorduras e óleos – e lodo. Da escuma, é extraída a gordura que, submetida a tratamento, é transformada em biodiesel. Cada litro de gordura poderá substituir 0,9 litro de diesel convencional, quase um por um. Segundo pesquisadores, o biodiesel evita 80% das emissões de CO², 98% da chuva ácida em cerca de 50% do material particulado (fuligem). A estimativa é de que sejam despejados no sistema de esgotos até 500 milhões de litros de óleo por ano.

TECNOLOGIA ALEMÃ

A estação experimental, que tem tecnologia alemã, terá capacidade para produzir 1,2 mil litros de biodiesel por dia. Segundo o diretor de Produção e Grande Operação da Cedae, Jorge Briard, as expectativas em relação a essa inovação tecnológica são muito grandes – os testes preliminares com motores que operam a diesel convencional apresentaram ótima performance com o combustível alternativo.

Briard destacou que a unidade-piloto também terá capacidade para produção de 2MW de biogás, que serão utilizados em geradores usados no processo de secagem do próprio lodo da ETE, que passará por um processo de secagem e aquecimento a partir do qual se obtêm carvão e gás metano. O teor de metano chega a 70%. A Coppe estuda um processo para elevar esse teor para 86% porque, nesse nível, o metano pode ser usado como gás veicular ou industrial.

De acordo com o professor de engenharia Donato Aranda, PhD em Química e um dos responsáveis pelo projeto na Coppe, a técnica de produção já foi desenvolvida. O desafio inicial era extrair a gordura da escuma gerada no processo de tratamento de esgotos – quimicamente, trata-se de um triglicerídio comum. Os equipamentos do laboratório do Instituto de Química da Coppe tiveram que ser readequados. A separação foi conseguida através de um aparelho denominado "Extrator Soxhlet".

Feito isso, a gordura extraída (cerca de 10%) é colocada em reatores com 15% de metanol (150 gramas/litro) e 1% de catalisador para acelerar a reação. A etapa final, segundo o professor, é reduzir a água do combustível, de 5% para 0,05%, e aferir o combustível, para verificar se está nos padrões da ANP.

PROTOCOLO DE KIOTO

Orçado em US$ 2,5 milhões, o projeto tem apoio financeiro da Termelétrica TermoRio e será desenvolvido no período de 18 meses. Após avaliação dos resultados na ETE Alegria, a produção do biodiesel de esgoto pode ser estendida a outras ETEs da companhia, como as de Pavuna, Paquetá, Penha, Ilha do Governador, Sarapuí e São Gonçalo – a de Alegria é a maior de todas, com capacidade de tratamento de 5 mil litros por segundo. Em 2008, a estação deve operar a uma vazão de 3 mil litros por segundo, atendendo com tratamento secundário mais de 40 bairros da cidade e beneficiando uma população de 1,5 milhão de habitantes.

A Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) estima que a capacidade de produção de biodiesel no país tenha superado 1,8 bilhão de litros em 2007. Existem 65 projetos de usinas, algumas já concluídas, totalizando uma capacidade total de 3,038 bilhões de litros/ano. Segundo o Ministério de Minas e Energia, a adoção voluntária da mistura de 2% de biodiesel no diesel já provocou redução da participação do diesel na matriz de energias veiculares de 54,5%, para 48,9% em 2006. Essa participação tende a recuar mais com a mistura obrigatória, a partir de 2008.

O uso do biodiesel já é uma realidade na Alemanha, onde circulam atualmente cerca de 100 mil veículos utilizando esse tipo de combustível. Entre as vantagens está a baixa emissão de gases, que são muito menos poluentes do que do diesel comum – já o desempenho do motor é o mesmo.

Segundo pesquisadores da Coppe, a energia térmica gerada pelo reator no processo de produção do biodiesel será aproveitada no aquecimento necessário para provocar a reação do biogás – o que atende ao protocolo de Kioto, pois reduz a emissão dos gases causadores do efeito estufa. A expectativa é de que se consiga produzir entre 5% e 10% da energia que a ETE de Alegria consome. O projeto quer transformar a imagem das companhias de saneamento de empresas de lixo e esgotos em companhias que representam a solução desses problemas.


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