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Chinatown
em Santa Cruz?
É muito bem vinda a siderúrgica – Companhia
Siderúrgica do Atlântico (CSA) – que o grupo
alemão ThyssenKrupp Stahl (TKS), associado à Companhia
Vale do Rio Doce, está implantando em Santa Cruz, município
do Rio de Janeiro. A usina irá produzir 5 milhões
de toneladas por ano de placas de aço para exportação
e gerar empregos e renda para o país. Estamos, no entanto,
atônitos com a notícia que serão "importados" 600
engenheiros e técnicos chineses para executarem a montagem
dos refratários da coqueria, uma das unidades que irão
compor a siderúrgica.
Vamos aos fatos. A CSA resolveu executar as
diversas unidades da usina – sinterização, altos-fornos, aciaria
e lingotamento contínuo – adquirindo a tecnologia
e equipamentos diretamente dos detentores da tecnologia e dos
fabricantes, e contratando separadamente os serviços de
construção civil e de montagem. No entanto, no
que se refere à coqueria foi decidido contratar dentro
da modalidade contrato EPC "turn-key", ou seja, fornecimento
dos equipamentos, construção civil e montagem e
posta em marcha, entregando a unidade funcionando.
A TKS optou pela construção de uma coqueria tipo "heat-recovery" que
tem como pontos positivos: menor investimento, simplicidade de
operação e construção e, muito importante,
operação não poluente. Grandes vantagens,
portanto, em relação às coquerias convencionais,
com fornos verticais e geração de subprodutos,
como as que estão operando nas siderúrgicas brasileiras,
que exigem pesados investimentos em controle de poluição,
de forma a atenderem aos padrões exigidos pela legislação
ambiental.
A tecnologia "heat-recovery", ou na sua versão "non-recovery",
não é nova, nem foi descoberta pelos chineses.
Na verdade, essa tecnologia foi desenvolvida inicialmente na
Austrália, no início do século XX, onde
existem duas coquerias de pequeno porte em operação,
ao sul de Sydney. Os técnicos brasileiros que visitaram
essas coquerias ficaram impressionados com a simplicidade da
operação. O processo australiano foi aperfeiçoado
e modificado, tendo sido construídas coquerias desse tipo
nos Estados Unidos, na Índia e na China. Atualmente existem
quatro grupos que estão comercializando essa tecnologia:
o Shanxi Province Chemical Design Institute (SPCDI), da China;
Sun Coke, dos Estados Unidos; Mitsui (que opera coqueria desse
tipo em Goa, Índia, utilizando a tecnologia original australiana)
e Uhde, subsidiária integral da TKS.
Cabe ressaltar que a Uhde fez acordo com a coqueria
australiana (Illawara) tendo adaptado alguns fornos da coqueria
que passaram a operar com sua tecnologia, com objetivo de testar
os parâmetros
do processo.
No Brasil, o grupo Arcelor-Mittal, maior grupo
siderúrgico
do mundo, através da SOL COQUERIA, está terminado
a construção de uma coqueria "heat-recovery",
com base na tecnologia da Sun Coke, na área da Companhia
Siderúrgica de Tubarão, em Vitória, Espírito
Santo, com capacidade de 1,55 milhões de t/ano de coque.
A SOL está construindo a coqueria usando exclusivamente
empresas brasileiras para os serviços de construção
civil e de montagem de refratários. É a comprovação
de que o Brasil possui mão-de-obra altamente qualificada
para montagem de refratários em coquerias "heat-recovery".
Não há, por outro lado, qualquer dificuldade técnica
na montagem de refratários que as empresas brasileiras
não sejam capazes de solucionar, sendo os custos brasileiros
reconhecidamente mais baixos que os internacionais.
A CSA escolheu, entre as tecnologias disponíveis, a chinesa,
do SPCDI, que foi ofertada pelo grupo CITIC. O contrato com A
CITIC prevê a vinda de engenheiros e técnicos chineses
para a montagem dos refratários. A solução
proposta pelos chineses visa apenas baratear a obra, utilizando
os extremamente baixos custos da mão-de-obra vigentes
na China, como é notório.
O contrato da CSA com a CITIC é altamente lesivo aos interesses
do país e da engenharia nacional e precisa ser imediatamente
revisto. Não podemos permitir que seja criado um perigoso
precedente, abrindo nosso mercado para a mão-de-obra chinesa,
num setor que é totalmente atendido, com qualidade, pelos
nossos técnicos, sendo que esse "modelo" poderá vir
a ser estendido para outros empreendimentos. Além disso,
a partir de fatos como esse, como se pode estimular um jovem
estudante a abraçar a carreira da engenharia, da qual
tanto o Brasil necessita? O Governo brasileiro tem defendido
uma maior aproximação comercial do Brasil com a
China, desde que preservado os interesses brasileiros.
Em suma, os argumentos que estão sendo veiculados na imprensa
não procedem. A tecnologia não é chinesa
e sim um desenvolvimento de tecnologia australiana, conhecida
há muito tempo, Os engenheiros e técnicos brasileiros
tem experiência comprovada na montagem de refratários,
tanto em coquerias convencionais, quanto em coquerias "heat-recovery" – não
há nenhuma necessidade de trazer técnicos da China.
O Clube de Engenharia, juntamente com o CREA-RJ e o Sindicato
de Engenheiros do Rio de Janeiro, irá tomar as ações
necessárias para impedir que essa importação
seja proibida.
A Diretoria
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