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Diretor diz que Cepel quase acabou na década de 90
O diretor geral do Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (Cepel), João Lizardo Hermes de Araújo, proferiu, na reunião do Conselho Diretor do dia 12 de novembro, palestra sobre a instituição, que atua como centro de pesquisa e desenvolvimento do grupo Eletrobrás. Lizardo falou sobre o funcionamento do Centro e revelou que ele correu o risco de ser extinto na década de noventa.
O Cepel, fundado em 1974 como uma sociedade civil sem fins lucrativos, é o maior centro do Brasil em P&D de energia elétrica e dispõe dos maiores laboratórios de alta tensão e potência da América Latina. Com orçamento anual de R$ 135 milhões, tem 505 funcionários e uma infra-estrutura avaliada em US$ 300 milhões.
O Cepel fornece apoio técnico ao Grupo Eletrobrás, ao Ministério das Minas e Energia (MME) e a entidades setoriais como o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e demais agentes do setor elétrico.
Fornece ainda metodologias e programas computacionais para apoio ao planejamento do setor elétrico brasileiro e treinamento de técnicos da EPE. Programas do Centro foram utilizados na elaboração do Plano Decenal de Expansão de Energia Elétrica (PDEE 2006-2015) e do Plano Nacional de Energia (PNE 2030, em finalização). O Cepel funciona em duas unidades: na Ilha do Fundão, no Rio, e em Adrianópolis, que fica em Nova Iguaçu (RJ).
– A pesquisa e o desenvolvimento no Cepel funcionam com uma estrutura matricial-funcional. Cada projeto de pesquisa está ligado a um departamento, mas pode envolver pesquisadores de diversos departamentos. O centro atua de forma bastante ampla em todas as facetas do sistema elétrico brasileiro, que é bastante particular, pois as dimensões do país são continentais. Nossa rede de transmissão interligada tem 3.900km de ponta a ponta, equivalente à distância entre Portugal e Finlândia. Outra característica é o peso da hidroeletricidade no sistema, com várias hidrelétricas de produtores diversos em uma mesma bacia, com uma demanda enorme por otimização energética e despachos centralizados – disse o diretor geral.
CARTEIRA DE PROJETOS
Os departamentos do Cepel desenvolvem pesquisas em sistemas elétricos, automação de sistemas, instalações e equipamentos e tecnologias especiais. Entre as principais atividades dos 30 laboratórios do Centro estão ensaios para projetos de P&D, ensaios de tipo em equipamentos e materiais, ensaios especiais, desenvolvimento de novas técnicas, eficiência energética e certificação. As especialidades desses laboratórios (12 em Adrianópolis e 18 na Ilha do Fundão) abrangem alta tensão, alta potência, materiais, eficiência energética, calibração e simulação de redes.
– Em 1974,o grupo Eletrobrás teve a visão estratégica de criar um centro de pesquisas para o setor elétrico. A composição atual dos recursos que chegam ao Cepel está distrbuída da seguinte forma: Eletrobras (74%), Chesf (8%) Eletronorte (8%), Eletrosul (2%) e Furnas (8%).
Em contrapartida o Cepel coloca à disposição do grupo uma carteira de projetos institucionais, além de ensaios laboratoriais. Os resultados transcendem ao grupo Eletrobrás – comemorou.
Programas desenvolvidos pelo Cepel são utilizados em países como EUA, Canadá, Itália, Irlanda, México e Noruega.
ACERVO TECNOLÓGICO
O Cepel tem acordos de cooperação técnica com universidades de todo o país para formação de profissionais e disponibilização da versão acadêmica de seus softwares. João Lizardo citou, entre os exemplos de produtos e projetos do Cepel, a cadeia de modelos computacionais para planejamento e operação eletro-energética. Essa, cadeia de modelos já gerou, segundo o ONS, uma economia de R$ 4,5 bilhões.
– Somos o único país em desenvolvimento com uma cadeia própria de programas computacionais de nível internacional – disse.
Segundo o diretor geral do Cepel, o setor elétrico brasileiro conta com um grande acervo tecnológico próprio, estratégico para o desenvolvimento sustentável do país.
– Este acervo tem sido construído com o apoio técnico e financeiro do Grupo Eletrobrás, ao longo de mais de 30 anos. O Cepel, no papel de guardião deste acervo, tem concentrado seus esforços e obtido resultados de sucesso na sua manutenção e evolução tecnológica, ampliando seus benefícios para o país. Estes resultados foram possíveis devido à capacitação multidisciplinar do Centro, permitindo uma atuação abrangente (hardware e software do setor). A estreita colaboração com técnicos do setor e de universidades foi decisiva para esta história de sucesso. O Cepel sente-se preparado para vencer os desafios futuros – disse.
PRIVATIZAÇÃO
Lizardo afirmou que o Brasil é hoje o único país em desenvolvimento que possui uma solução própria, completa, de reconhecimento internacional na área energética, sem similares, devido às características únicas do nosso sistema. A instituição vem desenvolvendo e exportando este patrimônio tecnológico, um dos maiores e mais estratégicos da engenharia nacional, há mais de 30 anos, com apoio de técnicos de universidades e de todo o setor elétrico brasileiro.
O diretor geral também abordou o problema do desmonte do setor público promovido na dedada passada.
– A década de 90 foi muito complicada para o setor elétrico e mais ainda para o Cepel. As ordens que vinham de cima eram no sentido de que o Cepel deixasse de ser um centro de pesquisas e virasse um prestador de serviços tecnológicos, simplesmente para poder sobreviver. A idéia era privatizar tudo, esquecendo que um acervo tecnológico é uma coisa de longo prazo, que custa muito a construir e é muito fácil de destruir. O Cepel chegou a ter 800 funcionários e depois caiu para apenas 370. O Centro tem um patrimônio físico, tecnológico e intelectual que não podemos jogar fora. Naqueles sistemas nefastos de desligamento voluntário perdemos dezenas de pesquisadores de altíssimo nível, que estamos recuperando agora com grande esforço. Alguns departamentos que são centrais em centros de pesquisa chegaram a ter tão poucos pesquisadores que alguns achavam que o Cepel ia fechar. Essa crença de que o mercado iria resolver tudo ignorou que pesquisa e desenvolvimento é uma atividade de longo prazo. Já o mercado é muito voltado para o curto prazo. Como sustentar uma atividade de longo prazo baseado numa ótica de curto prazo? É incompatível – finalizou.
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